No mar... entre... mais perto do céu...

Minha foto
BH, Minas Gerais, Brazil
A ‘‘butterfly moon’’, os dois tchicos que um dia eu conheci e que mesmo sem nenhuma palavra trocada mudaram minha vida, sabendo que provavelmente não voltarei a vê-los. O céu aberto, as ‘‘asas fauves e blesseds e os sonhos inefáveis’’. A música, a arte, o tesão, a esperança e tudo aquilo do qual não abro mão. Pessoas são passageiras, momentos são passageiros; sua memória não. Então talvez eu também seja um poço de lembranças, momentos, sonhos, vontades e filosofias.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Aonde mora o silêncio

O silêncio habita nas entrelinhas,
na inpiração,
no pulo e após o ponto.

O silêncio habita na unidade,
nos olhos
e na cumplicidade

O silêncio habita na boca,
nos pés, nos passos
e nos ouvidos.

O silêncio habita na emoção,
na euforia
e no desatino.

O silêncio habita no chocolate quente,
na coberta
e no deleite.

O silêncio habita nos banheiros,
no cigarro
e na vergonha.

Não sei aonde o silêncio mora,
Mas digo sem pudor
que por vezes em tudo ele habita:

quando algo se torna tudo
e para além do tudo
não existe mais nada.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Ela estava vestida de chuva
E tinha as pernas e o ventre livres
Tinha olheiras literárias
De quem sobre e desce escadas distraída

Imaginei seu bafo
Vendo seus lábios que diziam ao companheiro ao lado
Palavras que soavam tão sozinhas

Senti sua presença em um instante
Seguido dos seus decididos passos em partida
E como mulher-chuva
Receio que caminhara pela noite escura até o amanhecer

Em busca de uma compania literária
Que calasse tuas palavras solitárias
Lhe deixasse olheiras distraídas
Entre lábios e pernas, com um livre bafo
Amanhecesse teu ventre.

quarta-feira, 17 de março de 2010

O que não mais convém

Isolo o que me contém e não me atordoo com conversas alheias.

Porque o silêncio está ao redor e cabe em mim.

Percebo que nossa história é emoldurada. Um contorno que guarda um certo caos, um movimento que o tempo inteiro quer transpassar as bordas, um ruído intenso que não cabe e não se conforta.
E nem tudo que penso ou digo são para você.
Mas toda desorientação que em minha mente penetra; a dor e a esperança do que nunca há de ser, e todas as outras coisas que não me deste se tornam meu refúgio mental e impulsionam meu corpo para a conquista.
As vezes não ter é o que nós faz não desistir da vida.
Mas agora, por instantes, sou silêncio. E mesmo assim, tua memória emoldurada vêm. Porque o silêncio me trouxe a escrever e derrepente percebo que as palavras sempre foram as substancias incontidas; sempre foram as detentoras da única força que arrebentava as bordas.
E agora então, finalmente, entendo todo o seu medo de me ler.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Dói
É preciso sair
O mundo acontece lá fora
Há movimento, há o inusitado
Aqui dentro algo vibra querendo voar
Aqui dentro há uma descontentação solitária
E é preciso sair
É preciso abrir as portas
Que seja por fuga, é preciso buscar
Sair
Sair
Um pouquinho de dentro de mim.

POR UNA CABEZA:

Pelo salão eu circulava deslizando
Pés mornos
Um calor que não pingava

Sonho embriagado, a consciência a flutuar
Um amor que soprava sem intervalos,
Que recobria meu corpo, que silenciava meus lábios

Sorrindo.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Eu por cá já saciada de amores líquidos que me deixam sedenta do que já não é, me esquecendo de um será úmido nos chãos de pedra em que deslizo. Eu por ali, já antiga, já vivida, comida e desidratada pelo tempo que permanece em gavetas desgastadas. Eu quando ando cansada de mim mudo de mundo, renasço para uma viagem interligada pelo mesmo corpo, cama e carma. Eu que bato de porta em porta em busca de um outro que me carregue para um nunca mais. Mas a eternidade é de essência passageira. É tempo, espaço e percepção. Numa casa fresca, uma cama quente, a madeira estalando, a água fervendo, as janelas para sempre amanhecendo e anoitecendo. As vezes chuva. E por muitas, muitas, um calor que desnuda todos os receios e se entrega sem palavras a sua própria urgência.
E ela não sabia o que fazer com aquele monte de sentimentos que a acordavam no meio da madrugada apenas para lembrá-la que mais tarde ela teria que novamente se levantar. Acordava como quem não tivesse dormido, pois sentia a falta da presença de sonhos em sua noite, pela expectativa do ''e'' que preenchia e apagava seus dias. Olhava no espelho e não se reconhecia. Observava o redor e se sentia como uma mariposa à espera da morte. Se via apenas como uma matéria sensível que lhe proporcionava deslocamentos, sensações, gozos e dores musculares das quais não mais se importava. Tinha seu coração como fonte de tempestades e paz, no qual lhe escapava a alegria consoladora dos prazeres da carne. Se afogava em poesias para ocultar a angústia consequente dos anseios de sua mente e corpo, sendo aquelas, o único alimento que tapeava o vazio de sua alma. Com o desejo entregue, que o livro nunca se fechasse e ela se perdesse na beleza da dor da fantasia, que a emocionava, mas não corroía suas entranhas. Ainda é tempo, ainda é tempo. Ela as vezes repetia para si mesma. Isso por vezes a fazia flutuar sob mares perfumados de uma nostalgia futura e por outras a fazia mergulhar num furacão em que o tempo agonizantemente não se esgota.
A verdade é que a vida havia se tornado cansativa sob os mesmos olhos e o mesmo céu. Então resolvia desligar a mente, e dançava o silêncio e a espera.

Agenor de Miranda Araújo Neto

As ruas me cobram estilo, temor
A noite me cobra pudor
A sociedade me cobra coerência, jurisprudência
O tempo me cobra postura
A idade me cobra cisura
A família me cobra ternura
O sono me cobra ação
O dia me cobra razão
E você meu amor, tu me cobras calor
E é por isso que eu queria me profissionalizar: em cantando, amar.

Na definição do dicionário,um vespídeo solitário, de ferroada dolorosa; no Nordeste: moleque.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Meu seio
Profunda cavidade que denúncia em meu corpo as vibrações por aonde caminha minha alma
Por vezes nele pombas brancas que abrem suas asas em livre vôo
Por vezes pássaros negros que batem as asas desorientando meu peito, meus olhos, minhas palavras e meus passos
Às vezes sinto lá dentro meu todo em comunhão com o universo: pássaros, peixes, flores
Caixa d’prata das sensações
Às vezes sinto a morte em meu peito (e ela é específica no universo)
Desconhecendo o sabor da morte plena, sinto uma borboleta que de cinza se partiu em pedaços
Atropelada numa trilha de trem, ao acordar.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Porque o sol há de nascer
Porque no fim ainda há o estar
E no estar há o ser, há o sentir, há o será
Porque a cor é abstrata, dependente do qual que a figura
Porque há trilha e há de existir música e cores e saudade e sombra
E a sombra se desfaz
Quando a luz o liberta
Do silêncio.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Rememorei. Jamais existe o reviver para além das fronteiras da imaginação. Descobri que a saudade não consiste em outras pessoas, outros tempos. A saudade é simplesmente uma coisa que bate, com goles de angústia ou doce melancolia aqui no peito. A saudade é vontade de reencontrar um estado habitado. Um despertar fantástico que as vivências e as pessoas nos proporcionam.
A saudade é de nós mesmos. Das descobertas potencializadas de boas sensações que normalmente só analisamos depois: saudade. Mas não quero me prender a ela. O bom mesmo é se viver para a saudade. Sempre se abrindo ao despertar e se entregando as cores novas sem se preocupar com a sombra. A sombra sempre estará presente. Mas não quero ver o mundo cinza.
Depois das cores a saudade. Cores que parecem mais vivas enquanto estou assentada, só e resguardada por alguma sombra em algum canto da cidade.

sábado, 27 de junho de 2009

Às vezes me vejo com uma sonhadora. Tenho visto os sentidos escorrendo como os dias. Com o tempo, a passagem. Me vejo deitada na cama, olhando o azul límpido do céu e longe do meu abraço. Sempre senti que a felicidade mora longe. Sempre me dei melhor com as coisa intocáveis. Talvez por serem independentes e na impossibilidade de moldá-las com as mãos, meu coração e pensamento as têm em plena liberdade. É preciso força para se manter o coração e o pensamento livre quando se têm mãos enlaçadas. É preciso consciência, luta. Uma batalha que exige muito amor para que não se dê nós. Para que se enrosque de maneira que não se tire o ar. Para que as mãos não transformem se em pedras estáticas que servem apenas de apoio, enfeite ou objeto que quebre os tetos de vidro. Sinto o mundo imediato, urgente e de vidro. O meu barco corre em águas mais distantes, mais tranquilas e menos poluídas. Barulho, sirene, arranha-céus, chingamentos, impaciência. Uma urgência incrível de apenas continuar. Sabe se lá pra onde. Sabe se lá por quê. Sabe se lá o sentido. Enquanto esses questionamentos são o que nos possibilitam a direção do que procuramos. Procuro o sentido. Paz ou terror, o sentido nos liberta da condição do existir e nos desperta a um ser que está vivo. A um ser que se vê e que se conforta em uma estrela do universo. Nessa de sonhadora, o silêncio, o distante e a solidão me confortam mais do que as pedras e os tetos de vidro. As coisas brotam com uma facilidade e murcham, murcham até morrer. É preciso regar a cada segundo com a consciência de que o ciclos não se partem. A vida é que transforma. Se viver com menos superfluidade, superficialidade e supra-sumos. Consciência. Se olhar e ver que és uma máquina viva que funciona para que você funcione. Que não pára para que você não pare. E que luta até o último instante para te manter vivo, saudável. Que é fluida e equilibrada para que assim você seja. Mas é impalpável. É interno e distante.

domingo, 24 de maio de 2009

De(i)limitar:



Ainda tenho como sonho... ser quando crescer: criança.
Simples.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

O tempo corroeu as portas. Então a recobri com retalhos para que não passasse nenhum rato por debaixo delas.
Os ratos corroeram os retalhos, fizeram da minha proteção seu recanto de pernoite, por vezes invadindo o meu território. Resolvi trocar a porta, e colocar em seu lugar alguma que me assegurasse uma noite inteira de sono.
Mas continuava escutando os barulhos. Esvaziei os armários, arrastei a cama, troquei os móveis de lugar. E os barulhos ainda assim continuavam. Cimentei a porta. Me tranquei no quarto. Vigiei a janela. Durante a noite, com as vistas já exaustas, fechei a janela e adormeci. E ainda assim os ratos invadiram meu quarto e meu corpo, em um sonho.
.
.
.
Preciso me detetizar.

sábado, 16 de maio de 2009

Nem tudo é o que se vê, e nem tudo que é, se vê...

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Regando as buscas:

Não, o mundo não há de acabar amanhã e para que possa verdadeiramente viver algum instante dele, tenho de me conformar em ser um. Se todos somos um, se o mundo é um não vejo razão de me partir tanto. De querer dividir o mundo em mil fragmentos desconectados perdendo o real de sua essência. Perdendo minha razão de construir. Esquecendo de que dos mil se faz um novo a partir de nossa visão. Eu não quero mais me partir nem picotar sentidos esquecendo que a vida enquanto agora é esta mesmo. Que um novo mundo surge a cada dia. E para isso ele perpétua. Cultivo do qual brota o amanhã, sem que o percebamos. Não, o mundo não há de acabar e isso me faz sorrir e criar forças por dentro. Me dá mais certeza sobre o fato da tal felicidade estar dentro e que a beleza realmente está nos olhos de quem vê. Me faz perceber o quanto o agora pode ser belo, o quanto sou livre e que se existe um amanhã, há oportunidades de alegria sopradas pelo ar. Respirando-as agora as cultivo para que cresçam até que vire inatismo em mim. Se todos somos um, espero conseguir transformar minhas retinas em fonte de luz. E que assim todo o um que me transpasse se transforme. Que assim seja:
Amem!

Borboleta Lua

domingo, 1 de março de 2009

Enfim:



"O rádio não tem futuro". Lord Kelvin, matemático e físico escocês, ex-presidente da Sociedade Real, em 1897.

"Lee DeForest disse inúmeras vezes em muitos jornais e assumiu a responsabilidade de que seria possível um dia transmitir a voz humana pelo Atlântico muitos anos antes. Baseado nessa declarações absurdas e deliberadamente errôneas, o público foi levado a comprar ações da sua companhia..." Juiz norte-americano, culpando o inventor Lee DeForest por vender ações fraudulentas em carta para sua empresa Radio Telephone Company, em 1913.

"A caixa de música sem fio não tem futuro comercial imaginável. Quem pagaria por uma mensagem mandada para ninguém em particular?". Sócios de David Sarnoff respondendo a um documento que pedia investimento no rádio, em 1921.

''Se o rádio não a música que você quer ouvir, não procure dançar ao som daquela antiga valsa
Não! Não! Não! Não!Não! Não! Não! Não!Não! Não! Não! Não!...
É muito simples, é muito simples. É só mudar a estação.É só girar o botão.'' Raul Seixas, carpinteiro do universo 1980 - Brasil.


Já pintei o cabelo de várias cores, coloquei piercing, tirei. Coloquei novamente.Já sai com um chapéu na bolsa e voltei pra casa com ele na cabeça. Já sai com o mesmo chapéu na cabeça e voltei pra casa com ele na mão.Já sai de cara limpa e compartilhei noites em claro.Já compartilhei várias manhãs apagadas. Já passei maquiagem, já acordei com a cara borrada, já a borrei no banho. Já compartilhei da cara borrada e do banho com alguém. Já lavei o rosto vermelho de choro. Já lavei o rosto colorido, desenhado de alegria. Já fiz as unhas e desfiz em menos de 5 minutos. Já descasquei as unhas com os dentes do tempo. Já troquei de roupa milhares de vezes antes de sair e cheguei com a mesma expectativa na rua. Já troquei as estações. Já aguardei que a melodia tocasse. Já me troquei e me peguei nas mesmas besteiras. Já me firmei e tropecei em novas descobertas. Já andei olhando, procurando. Já andei comigo mesma e recebi surpresas. Já andei de ônibus lendo, sorrindo, esperando, falando intimidades no telefone, com pressa de chegar, chorando.Já peguei carona a pé, de bicicleta, carro , ônibus, carroça e caminhão. Já bebi para descobrir, para facilitar, para esquecer, para intensificar e por nada mesmo. Já fumei por vontade, por hábito, por ânsia, por vaidade. Já corri, meditei, nadei, dancei, caminhei, cantei, assentei, dormi por alegria, por tristeza, para alcançar, para fugir, para pensar, para silenciar, para ocupar, para despreocupar, por necessidade, por prazer, para aliviar, para exaurir. Já amei, reneguei, brinquei, sofri, voltei atrás, corri a frente, vivi o momento, sonhei, fui desfeita, refiz. Já gritei, agitei, emocionei. Já falei para demonstrar, persuadir , desabafar, explicar, sair de mim. Já ouvi pra entender, pra questionar, para continuar, por educação. Já descobri no silêncio a paz, a sugestão e a solidão. Já cheguei mas sempre fui embora. Já fiz e deixei de fazer. As ondas ainda transmitem, as antenas ainda captam... E o rádio, continua tocando músicas aleatórias.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Em tempo:

Andei mexendo em coisas antigas.
Primeiro papéis, muitos. Achei o livro que me lembro como o primeiro de tantos: "O Elefante Fofoqueiro", e o li. Andei mexendo, mexendo... Me deparei com tanta memória picada, tantas coisas esquecidas no fundo das lembranças em um armário e que parecem ocupar um espaço de inutilidade. Mas sei que guardei por algum motivo. Como disse um amigo: sinais de algum mapa. E no fundo sei que o motivo era me guardar. A materialização do pensamento de não me perder com o tempo. E através de anuais agendas escritas, papeizinhos, camisas rabiscadas e outros materiais tentava conservar lembranças sem permitir que desaparecessem, mesmo que a memória teimasse em esquecê-las . Então tropecei no impasse de trair aquela menina que habitou em mim com suas qualidades e defeitos. Silenciada pelo decorrer dos anos, eu poderia me desfazer tranquilamente de suas vontades. Minha loucura é a única em que ainda poderiam soar seus reclames. Seria um desrespeito àquela criança que detestava que mexessem em suas coisas e tinha motivos precisos para cada pedaço guardado. O seu tempo já se foi, mas sinto dúvida ao imaginar o seu choro entristecido. Ao imaginar que eu sou aquele adulto que não a compreende e por isso a mágoa. Sendo assim também algum monstro detestável que destruiu seus pequeninos e discretos tesouros. O dia em que tomar coragem, selecionarei aquilo que não mais convém e na desilusão de alcançar o fim do arco íris, enterrarei por debaixo de uma flor. Ou queimarei para que vire pó, soprado pelo ar de infinitas possibilidades. Assim me consolarei de que suas mil partículas tenham também mil oportunidades de brotar por qualquer lugar que as absorva.
Além das inutilidades, achei também coincidências. Um santinho de que não me lembrava mas que a menos de um dia por acaso, a memória de quem o compunha depois de tempos estava em minha boca. Encontrei meu primeiro livro de poesias. Ah...! Feito e desenhado aos 10 anos de idade, em um exercício de escola. Vi que naquelas palavras de uma pureza intangível, havia a maturidade de uma flor eterna exalando amor e saúde para todo o Universo. Nesse caso não há impasse, por enquanto as poesias são algo que pretendo conservar. Depois mexi em coisas não tão passadas e entulhadas com ainda alguma esperança futura. Tantos artesanatos não acabados... Matérias esperando a paciência de uma mente que as floresceria através das mãos. Esses também não tive impasse. Ainda pretendo utilizá-las e transformá-las em alguma forma de beleza. Agora a pouco vim mexer em minhas poesias misturadas e escritos. Mais recentes dentro da capacidade dos meus 20 anos, mas já sufocadas pelo coração. Essas eu sei que não tenho como apagar, e o que já foi feito, não há como adiar para o futuro. Mais que materializadas, elas estão cobertas de lembranças e sentimentos que nem colocando fogo, enterrando ou o desaparecimento súbito da internet seriam capazes de apagar. Elas revelam o meu eu mais profundo. Carimbadas como emoção que vibra pela eternidade na estrada em que não perpetuaram. E o fogo que pudesse ameaçar queimá-las provavelmente as acenderia com toda a força. Elas revelam subjetivamente a causa de construção e desconstrução. Dos passos sempre recentes. Do que me surpreende no progressivo atual . Dos sorrisos. Talvez, se chegar aos cinquenta anos elas sejam só pedaços sem espaço. Pode ser que se tornem inconvenientes pela frustração de ter passado todos os anos escrevendo e isso não ter me valido um relógio de ouro ou um amor. Quem sabe o amor terá ocupado as linhas do consolo e elas me sirvam para acender uma fogueira de euforia? Também em alguma crise depressiva, lendo um antigo sentimento habitado eu me depare com tantas e tantas e tantas emoções esquecidas que podem vir a me reanimar para alguma aventura. As vezes elas até virem livro ou música, ou não. Imagino que talvez aos 90 nada disso importe mais. Os escritos mesmo que recentes se tornem na memória turva algo mais que longíquio, uma nostalgia do que nunca foi. E uma rememoração vaga. A chegada de uma nova infância mas em que não se acha mais sentido de se guardar os pedaços experimentados por ela, pois também se sente que já não há mais tempo de se perder. O tempo se esvai a cada segundo como um eterno início do fim. Mas para não cultivar expectativas, poderia dizer que possivelmente não aconteça nada disso. Porém, mesmo certa da incerteza do futuro, o fato concluso é que de tantas palavras organizadas com sempre um ponto e alguma esperança oculta, rejeitando as ou guardando as a cada dia com mais cuidado, sei que em seus sentidos elas ainda serão a substância inorgânica que me levarão. Até lá.

(Kel Mello).

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Memórias de um banco:



Me pergunto sobre a razão do tempo. Das folhas que caem e dos meus olhos que um dia admiraram-nas ou pisaram sobre elas. Memórias que não se apagam mas que deixam de arder em meio uma invisível tempestade em que o tempo bóia. Defrontei-me com o banco em que se esteve toda uma forma de mundo, um momento de vida, sonhos e alguém a desejar. E agora sei que lá o banco permanecerá para que eu me assente eternamente. Na roda do tempo lá estive diversas vezes com os sentidos e os pensamentos mais variados. Lá também por vezes me deitei só. Desejei ser um grão de areia. Indistinguível, imperceptível. Apenas um ruído de horas, para que ninguém desconfiasse. Desforme, descontinua, desiludida e mal acabada. Hoje a tarde me perguntei porque o banco continuava ali estático; as folhas ainda nasciam e caiam da mesma árvore enquanto eu, não as via não as pisava, e nem estava mais ali. A fotografia ficou incompleta. Afinal, um banco que guardava tantas memórias minhas. Tanta tristeza e tanta esperança depositadas no lugar ao lado do que me assentava, sempre vazio. Bom ou ruim, era o meu passado voltando aos meus olhos através da fotografia. A lembrança das emoções que me perturbavam me atiçando a novamente sentar naquele banco. Chorar, escrever e procurar algum orelhão próximo para dar o telefonema. Quando a ansiedade andava de mãos dadas com a esperança. Me assaltou o equilíbrio por momentos o saudosismo de um ciclo seguro, que em sua dor não se partia. Olhei novamente aquele quadro. Refleti sobre as paredes invisíveis que me trancafiavam por trás daquela tela. Eram as paredes que me tiravam o ar sem que eu as enxergasse. E agora as vejo delimitando tão bem um todo que era eterno, porque era estático. Porque era seguro não me remover. As coisas continuariam sempre ali indiferentes, e eu do modo como quisesse. Eu era vitima da cegueira amedrontada que criei para proteger minhas ilusões. Mas senti que mesmo me assentando ali naquele momento, a fotografia continuaria vazia. A fotografia continuaria vítima do passado. O banco? Era vítima de permanecer. As folhas continuariam eternamente em sua natureza de figurar, vítimas de sentimentos que as entregassem. Porque o que compunha a fotografia não era o banco, nem as folhas e muito menos eu. Era a vítima de minhas pretensões. Era a espera angustiada com um lugar sempre vazio ao lado.

(Raquel Mello).

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Amoras e amores:


Um dia me veio um vendedor de amoras bater em minha porta. Amoras em pleno verão. Já não era mais primavera; já não era mais tempo de amoras. Mas o recebi, comi as amoras e me lambuzei. Na mesma noite me bateu a porta um devaneio que pela primeira vez ousou me questionar sobre o amor. Com tanta firmeza eu diria que já havia amado uma vez, apesar das inúmeras paixões. Por uma vez tive a sorte de conhecer o amor. Em pleno inverno. Época boa para se aquecer os pés e o sentimento. No dia seguinte não bateram a porta. Pelas janelas invadiu a incerteza sobre o que era o amor. Pelas mesmas me veio a falta das amoras em minha mesa. Verão não é tempo de amoras. Inverno talvez o tempo mais cômodo ao amor. Carambolas no outono, morangos no inverno, cerejas na primavera, ameixas no verão. Amoras também na primavera. Já não esperava mais por elas. Junto com as flores deixei para trás também seu gosto, junto ao tempo. Então me perguntei por que elas vinham me atormentar atrasadas na nova estação. Por que ao invés de amoras aquele vendedor não me ofereceu abacaxis? ameixas, mangas, jacas ou goiabas? Quando as batidas na porta seriam já esperadas. Quando o encontro seria premeditado e caminharia seguindo as estações. Por que amoras atrasadas ao passado, adiantadas ao futuro, sem encontrar-se presente? Me sugestionando a enxergar sempre flores enfeitando as ruas e o céu coberto de estrelas, guardando sonhos. Me fazendo desejar aquecer os pés me banhando de suor alheio enquanto é verão. Enquanto o calor é torturante. O inesperado é apaixonante, é especial. Carrega sonhos acordados. Para alguns terror. Mas para mim é encanto. Desde então dei a questionar o amor. Dei a esperar flores no outono e semanas escaldantes no inverno. Dei a perceber que é mais saboroso quando não se aguarda, não se previne. Quando a vontade é maior que o dever do tempo. Quando se lambuza mesmo com o perigo de manchar a estrada porque ainda não é estação para a sua passagem. Quando tentando tapear a natureza se quer cultivar amoras durante o ano todo. Quando o risco incumbido na incerteza do inesperado apaixonante, se faz também amável.

Raquel Mello.