Primeiro papéis, muitos. Achei o livro que me lembro como o primeiro de tantos: "O Elefante Fofoqueiro", e o li. Andei mexendo, mexendo... Me deparei com tanta memória picada, tantas coisas esquecidas no fundo das lembranças em um armário e que parecem ocupar um espaço de inutilidade. Mas sei que guardei por algum motivo. Como disse um amigo: sinais de algum mapa. E no fundo sei que o motivo era me guardar. A materialização do pensamento de não me perder com o tempo. E através de anuais agendas escritas, papeizinhos, camisas rabiscadas e outros materiais tentava conservar lembranças sem permitir que desaparecessem, mesmo que a memória teimasse em esquecê-las . Então tropecei no impasse de trair aquela menina que habitou em mim com suas qualidades e defeitos. Silenciada pelo decorrer dos anos, eu poderia me desfazer tranquilamente de suas vontades. Minha loucura é a única em que ainda poderiam soar seus reclames. Seria um desrespeito àquela criança que detestava que mexessem em suas coisas e tinha motivos precisos para cada pedaço guardado. O seu tempo já se foi, mas sinto dúvida ao imaginar o seu choro entristecido. Ao imaginar que eu sou aquele adulto que não a compreende e por isso a mágoa. Sendo assim também algum monstro detestável que destruiu seus pequeninos e discretos tesouros. O dia em que tomar coragem, selecionarei aquilo que não mais convém e na desilusão de alcançar o fim do arco íris, enterrarei por debaixo de uma flor. Ou queimarei para que vire pó, soprado pelo ar de infinitas possibilidades. Assim me consolarei de que suas mil partículas tenham também mil oportunidades de brotar por qualquer lugar que as absorva.
Além das inutilidades, achei também coincidências. Um santinho de que não me lembrava mas que a menos de um dia por acaso, a memória de quem o compunha depois de tempos estava em minha boca. Encontrei meu primeiro livro de poesias. Ah...! Feito e desenhado aos 10 anos de idade, em um exercício de escola. Vi que naquelas palavras de uma pureza intangível, havia a maturidade de uma flor eterna exalando amor e saúde para todo o Universo. Nesse caso não há impasse, por enquanto as poesias são algo que pretendo conservar. Depois mexi em coisas não tão passadas e entulhadas com ainda alguma esperança futura. Tantos artesanatos não acabados... Matérias esperando a paciência de uma mente que as floresceria através das mãos. Esses também não tive impasse. Ainda pretendo utilizá-las e transformá-las em alguma forma de beleza. Agora a pouco vim mexer em minhas poesias misturadas e escritos. Mais recentes dentro da capacidade dos meus 20 anos, mas já sufocadas pelo coração. Essas eu sei que não tenho como apagar, e o que já foi feito, não há como adiar para o futuro. Mais que materializadas, elas estão cobertas de lembranças e sentimentos que nem colocando fogo, enterrando ou o desaparecimento súbito da internet seriam capazes de apagar. Elas revelam o meu eu mais profundo. Carimbadas como emoção que vibra pela eternidade na estrada em que não perpetuaram. E o fogo que pudesse ameaçar queimá-las provavelmente as acenderia com toda a força. Elas revelam subjetivamente a causa de construção e desconstrução. Dos passos sempre recentes. Do que me surpreende no progressivo atual . Dos sorrisos. Talvez, se chegar aos cinquenta anos elas sejam só pedaços sem espaço. Pode ser que se tornem inconvenientes pela frustração de ter passado todos os anos escrevendo e isso não ter me valido um relógio de ouro ou um amor. Quem sabe o amor terá ocupado as linhas do consolo e elas me sirvam para acender uma fogueira de euforia? Também em alguma crise depressiva, lendo um antigo sentimento habitado eu me depare com tantas e tantas e tantas emoções esquecidas que podem vir a me reanimar para alguma aventura. As vezes elas até virem livro ou música, ou não. Imagino que talvez aos 90 nada disso importe mais. Os escritos mesmo que recentes se tornem na memória turva algo mais que longíquio, uma nostalgia do que nunca foi. E uma rememoração vaga. A chegada de uma nova infância mas em que não se acha mais sentido de se guardar os pedaços experimentados por ela, pois também se sente que já não há mais tempo de se perder. O tempo se esvai a cada segundo como um eterno início do fim. Mas para não cultivar expectativas, poderia dizer que possivelmente não aconteça nada disso. Porém, mesmo certa da incerteza do futuro, o fato concluso é que de tantas palavras organizadas com sempre um ponto e alguma esperança oculta, rejeitando as ou guardando as a cada dia com mais cuidado, sei que em seus sentidos elas ainda serão a substância inorgânica que me levarão. Até lá.
(Kel Mello).
Além das inutilidades, achei também coincidências. Um santinho de que não me lembrava mas que a menos de um dia por acaso, a memória de quem o compunha depois de tempos estava em minha boca. Encontrei meu primeiro livro de poesias. Ah...! Feito e desenhado aos 10 anos de idade, em um exercício de escola. Vi que naquelas palavras de uma pureza intangível, havia a maturidade de uma flor eterna exalando amor e saúde para todo o Universo. Nesse caso não há impasse, por enquanto as poesias são algo que pretendo conservar. Depois mexi em coisas não tão passadas e entulhadas com ainda alguma esperança futura. Tantos artesanatos não acabados... Matérias esperando a paciência de uma mente que as floresceria através das mãos. Esses também não tive impasse. Ainda pretendo utilizá-las e transformá-las em alguma forma de beleza. Agora a pouco vim mexer em minhas poesias misturadas e escritos. Mais recentes dentro da capacidade dos meus 20 anos, mas já sufocadas pelo coração. Essas eu sei que não tenho como apagar, e o que já foi feito, não há como adiar para o futuro. Mais que materializadas, elas estão cobertas de lembranças e sentimentos que nem colocando fogo, enterrando ou o desaparecimento súbito da internet seriam capazes de apagar. Elas revelam o meu eu mais profundo. Carimbadas como emoção que vibra pela eternidade na estrada em que não perpetuaram. E o fogo que pudesse ameaçar queimá-las provavelmente as acenderia com toda a força. Elas revelam subjetivamente a causa de construção e desconstrução. Dos passos sempre recentes. Do que me surpreende no progressivo atual . Dos sorrisos. Talvez, se chegar aos cinquenta anos elas sejam só pedaços sem espaço. Pode ser que se tornem inconvenientes pela frustração de ter passado todos os anos escrevendo e isso não ter me valido um relógio de ouro ou um amor. Quem sabe o amor terá ocupado as linhas do consolo e elas me sirvam para acender uma fogueira de euforia? Também em alguma crise depressiva, lendo um antigo sentimento habitado eu me depare com tantas e tantas e tantas emoções esquecidas que podem vir a me reanimar para alguma aventura. As vezes elas até virem livro ou música, ou não. Imagino que talvez aos 90 nada disso importe mais. Os escritos mesmo que recentes se tornem na memória turva algo mais que longíquio, uma nostalgia do que nunca foi. E uma rememoração vaga. A chegada de uma nova infância mas em que não se acha mais sentido de se guardar os pedaços experimentados por ela, pois também se sente que já não há mais tempo de se perder. O tempo se esvai a cada segundo como um eterno início do fim. Mas para não cultivar expectativas, poderia dizer que possivelmente não aconteça nada disso. Porém, mesmo certa da incerteza do futuro, o fato concluso é que de tantas palavras organizadas com sempre um ponto e alguma esperança oculta, rejeitando as ou guardando as a cada dia com mais cuidado, sei que em seus sentidos elas ainda serão a substância inorgânica que me levarão. Até lá.
(Kel Mello).

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