
Me pergunto sobre a razão do tempo. Das folhas que caem e dos meus olhos que um dia admiraram-nas ou pisaram sobre elas. Memórias que não se apagam mas que deixam de arder em meio uma invisível tempestade em que o tempo bóia. Defrontei-me com o banco em que se esteve toda uma forma de mundo, um momento de vida, sonhos e alguém a desejar. E agora sei que lá o banco permanecerá para que eu me assente eternamente. Na roda do tempo lá estive diversas vezes com os sentidos e os pensamentos mais variados. Lá também por vezes me deitei só. Desejei ser um grão de areia. Indistinguível, imperceptível. Apenas um ruído de horas, para que ninguém desconfiasse. Desforme, descontinua, desiludida e mal acabada. Hoje a tarde me perguntei porque o banco continuava ali estático; as folhas ainda nasciam e caiam da mesma árvore enquanto eu, não as via não as pisava, e nem estava mais ali. A fotografia ficou incompleta. Afinal, um banco que guardava tantas memórias minhas. Tanta tristeza e tanta esperança depositadas no lugar ao lado do que me assentava, sempre vazio. Bom ou ruim, era o meu passado voltando aos meus olhos através da fotografia. A lembrança das emoções que me perturbavam me atiçando a novamente sentar naquele banco. Chorar, escrever e procurar algum orelhão próximo para dar o telefonema. Quando a ansiedade andava de mãos dadas com a esperança. Me assaltou o equilíbrio por momentos o saudosismo de um ciclo seguro, que em sua dor não se partia. Olhei novamente aquele quadro. Refleti sobre as paredes invisíveis que me trancafiavam por trás daquela tela. Eram as paredes que me tiravam o ar sem que eu as enxergasse. E agora as vejo delimitando tão bem um todo que era eterno, porque era estático. Porque era seguro não me remover. As coisas continuariam sempre ali indiferentes, e eu do modo como quisesse. Eu era vitima da cegueira amedrontada que criei para proteger minhas ilusões. Mas senti que mesmo me assentando ali naquele momento, a fotografia continuaria vazia. A fotografia continuaria vítima do passado. O banco? Era vítima de permanecer. As folhas continuariam eternamente em sua natureza de figurar, vítimas de sentimentos que as entregassem. Porque o que compunha a fotografia não era o banco, nem as folhas e muito menos eu. Era a vítima de minhas pretensões. Era a espera angustiada com um lugar sempre vazio ao lado.
(Raquel Mello).

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