No mar... entre... mais perto do céu...

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BH, Minas Gerais, Brazil
A ‘‘butterfly moon’’, os dois tchicos que um dia eu conheci e que mesmo sem nenhuma palavra trocada mudaram minha vida, sabendo que provavelmente não voltarei a vê-los. O céu aberto, as ‘‘asas fauves e blesseds e os sonhos inefáveis’’. A música, a arte, o tesão, a esperança e tudo aquilo do qual não abro mão. Pessoas são passageiras, momentos são passageiros; sua memória não. Então talvez eu também seja um poço de lembranças, momentos, sonhos, vontades e filosofias.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Amoras e amores:


Um dia me veio um vendedor de amoras bater em minha porta. Amoras em pleno verão. Já não era mais primavera; já não era mais tempo de amoras. Mas o recebi, comi as amoras e me lambuzei. Na mesma noite me bateu a porta um devaneio que pela primeira vez ousou me questionar sobre o amor. Com tanta firmeza eu diria que já havia amado uma vez, apesar das inúmeras paixões. Por uma vez tive a sorte de conhecer o amor. Em pleno inverno. Época boa para se aquecer os pés e o sentimento. No dia seguinte não bateram a porta. Pelas janelas invadiu a incerteza sobre o que era o amor. Pelas mesmas me veio a falta das amoras em minha mesa. Verão não é tempo de amoras. Inverno talvez o tempo mais cômodo ao amor. Carambolas no outono, morangos no inverno, cerejas na primavera, ameixas no verão. Amoras também na primavera. Já não esperava mais por elas. Junto com as flores deixei para trás também seu gosto, junto ao tempo. Então me perguntei por que elas vinham me atormentar atrasadas na nova estação. Por que ao invés de amoras aquele vendedor não me ofereceu abacaxis? ameixas, mangas, jacas ou goiabas? Quando as batidas na porta seriam já esperadas. Quando o encontro seria premeditado e caminharia seguindo as estações. Por que amoras atrasadas ao passado, adiantadas ao futuro, sem encontrar-se presente? Me sugestionando a enxergar sempre flores enfeitando as ruas e o céu coberto de estrelas, guardando sonhos. Me fazendo desejar aquecer os pés me banhando de suor alheio enquanto é verão. Enquanto o calor é torturante. O inesperado é apaixonante, é especial. Carrega sonhos acordados. Para alguns terror. Mas para mim é encanto. Desde então dei a questionar o amor. Dei a esperar flores no outono e semanas escaldantes no inverno. Dei a perceber que é mais saboroso quando não se aguarda, não se previne. Quando a vontade é maior que o dever do tempo. Quando se lambuza mesmo com o perigo de manchar a estrada porque ainda não é estação para a sua passagem. Quando tentando tapear a natureza se quer cultivar amoras durante o ano todo. Quando o risco incumbido na incerteza do inesperado apaixonante, se faz também amável.

Raquel Mello.

Um comentário:

Anônimo disse...

Que lindo kel!!!!