No mar... entre... mais perto do céu...

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BH, Minas Gerais, Brazil
A ‘‘butterfly moon’’, os dois tchicos que um dia eu conheci e que mesmo sem nenhuma palavra trocada mudaram minha vida, sabendo que provavelmente não voltarei a vê-los. O céu aberto, as ‘‘asas fauves e blesseds e os sonhos inefáveis’’. A música, a arte, o tesão, a esperança e tudo aquilo do qual não abro mão. Pessoas são passageiras, momentos são passageiros; sua memória não. Então talvez eu também seja um poço de lembranças, momentos, sonhos, vontades e filosofias.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Em tempo:

Andei mexendo em coisas antigas.
Primeiro papéis, muitos. Achei o livro que me lembro como o primeiro de tantos: "O Elefante Fofoqueiro", e o li. Andei mexendo, mexendo... Me deparei com tanta memória picada, tantas coisas esquecidas no fundo das lembranças em um armário e que parecem ocupar um espaço de inutilidade. Mas sei que guardei por algum motivo. Como disse um amigo: sinais de algum mapa. E no fundo sei que o motivo era me guardar. A materialização do pensamento de não me perder com o tempo. E através de anuais agendas escritas, papeizinhos, camisas rabiscadas e outros materiais tentava conservar lembranças sem permitir que desaparecessem, mesmo que a memória teimasse em esquecê-las . Então tropecei no impasse de trair aquela menina que habitou em mim com suas qualidades e defeitos. Silenciada pelo decorrer dos anos, eu poderia me desfazer tranquilamente de suas vontades. Minha loucura é a única em que ainda poderiam soar seus reclames. Seria um desrespeito àquela criança que detestava que mexessem em suas coisas e tinha motivos precisos para cada pedaço guardado. O seu tempo já se foi, mas sinto dúvida ao imaginar o seu choro entristecido. Ao imaginar que eu sou aquele adulto que não a compreende e por isso a mágoa. Sendo assim também algum monstro detestável que destruiu seus pequeninos e discretos tesouros. O dia em que tomar coragem, selecionarei aquilo que não mais convém e na desilusão de alcançar o fim do arco íris, enterrarei por debaixo de uma flor. Ou queimarei para que vire pó, soprado pelo ar de infinitas possibilidades. Assim me consolarei de que suas mil partículas tenham também mil oportunidades de brotar por qualquer lugar que as absorva.
Além das inutilidades, achei também coincidências. Um santinho de que não me lembrava mas que a menos de um dia por acaso, a memória de quem o compunha depois de tempos estava em minha boca. Encontrei meu primeiro livro de poesias. Ah...! Feito e desenhado aos 10 anos de idade, em um exercício de escola. Vi que naquelas palavras de uma pureza intangível, havia a maturidade de uma flor eterna exalando amor e saúde para todo o Universo. Nesse caso não há impasse, por enquanto as poesias são algo que pretendo conservar. Depois mexi em coisas não tão passadas e entulhadas com ainda alguma esperança futura. Tantos artesanatos não acabados... Matérias esperando a paciência de uma mente que as floresceria através das mãos. Esses também não tive impasse. Ainda pretendo utilizá-las e transformá-las em alguma forma de beleza. Agora a pouco vim mexer em minhas poesias misturadas e escritos. Mais recentes dentro da capacidade dos meus 20 anos, mas já sufocadas pelo coração. Essas eu sei que não tenho como apagar, e o que já foi feito, não há como adiar para o futuro. Mais que materializadas, elas estão cobertas de lembranças e sentimentos que nem colocando fogo, enterrando ou o desaparecimento súbito da internet seriam capazes de apagar. Elas revelam o meu eu mais profundo. Carimbadas como emoção que vibra pela eternidade na estrada em que não perpetuaram. E o fogo que pudesse ameaçar queimá-las provavelmente as acenderia com toda a força. Elas revelam subjetivamente a causa de construção e desconstrução. Dos passos sempre recentes. Do que me surpreende no progressivo atual . Dos sorrisos. Talvez, se chegar aos cinquenta anos elas sejam só pedaços sem espaço. Pode ser que se tornem inconvenientes pela frustração de ter passado todos os anos escrevendo e isso não ter me valido um relógio de ouro ou um amor. Quem sabe o amor terá ocupado as linhas do consolo e elas me sirvam para acender uma fogueira de euforia? Também em alguma crise depressiva, lendo um antigo sentimento habitado eu me depare com tantas e tantas e tantas emoções esquecidas que podem vir a me reanimar para alguma aventura. As vezes elas até virem livro ou música, ou não. Imagino que talvez aos 90 nada disso importe mais. Os escritos mesmo que recentes se tornem na memória turva algo mais que longíquio, uma nostalgia do que nunca foi. E uma rememoração vaga. A chegada de uma nova infância mas em que não se acha mais sentido de se guardar os pedaços experimentados por ela, pois também se sente que já não há mais tempo de se perder. O tempo se esvai a cada segundo como um eterno início do fim. Mas para não cultivar expectativas, poderia dizer que possivelmente não aconteça nada disso. Porém, mesmo certa da incerteza do futuro, o fato concluso é que de tantas palavras organizadas com sempre um ponto e alguma esperança oculta, rejeitando as ou guardando as a cada dia com mais cuidado, sei que em seus sentidos elas ainda serão a substância inorgânica que me levarão. Até lá.

(Kel Mello).

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Memórias de um banco:



Me pergunto sobre a razão do tempo. Das folhas que caem e dos meus olhos que um dia admiraram-nas ou pisaram sobre elas. Memórias que não se apagam mas que deixam de arder em meio uma invisível tempestade em que o tempo bóia. Defrontei-me com o banco em que se esteve toda uma forma de mundo, um momento de vida, sonhos e alguém a desejar. E agora sei que lá o banco permanecerá para que eu me assente eternamente. Na roda do tempo lá estive diversas vezes com os sentidos e os pensamentos mais variados. Lá também por vezes me deitei só. Desejei ser um grão de areia. Indistinguível, imperceptível. Apenas um ruído de horas, para que ninguém desconfiasse. Desforme, descontinua, desiludida e mal acabada. Hoje a tarde me perguntei porque o banco continuava ali estático; as folhas ainda nasciam e caiam da mesma árvore enquanto eu, não as via não as pisava, e nem estava mais ali. A fotografia ficou incompleta. Afinal, um banco que guardava tantas memórias minhas. Tanta tristeza e tanta esperança depositadas no lugar ao lado do que me assentava, sempre vazio. Bom ou ruim, era o meu passado voltando aos meus olhos através da fotografia. A lembrança das emoções que me perturbavam me atiçando a novamente sentar naquele banco. Chorar, escrever e procurar algum orelhão próximo para dar o telefonema. Quando a ansiedade andava de mãos dadas com a esperança. Me assaltou o equilíbrio por momentos o saudosismo de um ciclo seguro, que em sua dor não se partia. Olhei novamente aquele quadro. Refleti sobre as paredes invisíveis que me trancafiavam por trás daquela tela. Eram as paredes que me tiravam o ar sem que eu as enxergasse. E agora as vejo delimitando tão bem um todo que era eterno, porque era estático. Porque era seguro não me remover. As coisas continuariam sempre ali indiferentes, e eu do modo como quisesse. Eu era vitima da cegueira amedrontada que criei para proteger minhas ilusões. Mas senti que mesmo me assentando ali naquele momento, a fotografia continuaria vazia. A fotografia continuaria vítima do passado. O banco? Era vítima de permanecer. As folhas continuariam eternamente em sua natureza de figurar, vítimas de sentimentos que as entregassem. Porque o que compunha a fotografia não era o banco, nem as folhas e muito menos eu. Era a vítima de minhas pretensões. Era a espera angustiada com um lugar sempre vazio ao lado.

(Raquel Mello).

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Amoras e amores:


Um dia me veio um vendedor de amoras bater em minha porta. Amoras em pleno verão. Já não era mais primavera; já não era mais tempo de amoras. Mas o recebi, comi as amoras e me lambuzei. Na mesma noite me bateu a porta um devaneio que pela primeira vez ousou me questionar sobre o amor. Com tanta firmeza eu diria que já havia amado uma vez, apesar das inúmeras paixões. Por uma vez tive a sorte de conhecer o amor. Em pleno inverno. Época boa para se aquecer os pés e o sentimento. No dia seguinte não bateram a porta. Pelas janelas invadiu a incerteza sobre o que era o amor. Pelas mesmas me veio a falta das amoras em minha mesa. Verão não é tempo de amoras. Inverno talvez o tempo mais cômodo ao amor. Carambolas no outono, morangos no inverno, cerejas na primavera, ameixas no verão. Amoras também na primavera. Já não esperava mais por elas. Junto com as flores deixei para trás também seu gosto, junto ao tempo. Então me perguntei por que elas vinham me atormentar atrasadas na nova estação. Por que ao invés de amoras aquele vendedor não me ofereceu abacaxis? ameixas, mangas, jacas ou goiabas? Quando as batidas na porta seriam já esperadas. Quando o encontro seria premeditado e caminharia seguindo as estações. Por que amoras atrasadas ao passado, adiantadas ao futuro, sem encontrar-se presente? Me sugestionando a enxergar sempre flores enfeitando as ruas e o céu coberto de estrelas, guardando sonhos. Me fazendo desejar aquecer os pés me banhando de suor alheio enquanto é verão. Enquanto o calor é torturante. O inesperado é apaixonante, é especial. Carrega sonhos acordados. Para alguns terror. Mas para mim é encanto. Desde então dei a questionar o amor. Dei a esperar flores no outono e semanas escaldantes no inverno. Dei a perceber que é mais saboroso quando não se aguarda, não se previne. Quando a vontade é maior que o dever do tempo. Quando se lambuza mesmo com o perigo de manchar a estrada porque ainda não é estação para a sua passagem. Quando tentando tapear a natureza se quer cultivar amoras durante o ano todo. Quando o risco incumbido na incerteza do inesperado apaixonante, se faz também amável.

Raquel Mello.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

''Fiz de quatro paredes em meu corpo uma muralha transparente e fui ao longe..''

Que a insensatez não seja em vão
Que o seu retorno seja alegria certeira de se aventurar
Que a vida te mostre o caminho através do devaneio
Que ínfima sejam as fronteiras da ausência do peso, a leveza
Que você sorria ao acordar
Que o céu esteja sempre aberto em seus olhos, que eles brilhem
Que o sono realmente reconstitua e renove os pedaços
Que suas lágrimas sejam usadas para regar as flores dos jardins de sua alma
Que consiga amar o nada para conseguir alcançar o tudo
Que sua vida não caiba resumos
Que as coisas nunca estejam terminadas
Que você não perca sua essência e cegue o essencial
Que não detenha o poder de suas asas
Que você não passe a vida a procurar, despercebendo o encontrar
Que seus pés não se prendam a sapatos, nem estradas
Que você os permita flutuar como uma mente que vive em sonhos...

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Incha dia:.

Eu vi a infância adentro rosto de meu avô. Todos os sonhos e planos de um futuro expostos sob a face presente. As expectativas deitadas sob a cama. Os pés agitados a descansar. Na ânsia de crescer, pela luz tardia que invadia o quarto, a correria pela vida por debaixo das cobertas quentes, serenas.
A repousar.
Um bebê, uma flor frágil. Eu vi seus pés inchados. Aquela cama, eu vi um berço. Uma criança que ainda não aprendeu a andar. Uma infância que precisa de um futuro que sai pelas janelas para voar.

(Apesar de achar que ainda não está terminada, resolvi postar.. afinal.. as coisas nunca estão terminadas.)

(Raquel Mello)

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Ela me retorna a minha origem. Ela retoma a possibilidade da vida, a mesma que só existe devido a morte. Na impossibilidade de abrir vôo, flutuo sobre sua imensidão. Não conseguindo apalpar mundos que passam pela minha cabeça ela oferece outra dimensão, outra densidade, a sensação de si num outro todo. Num outro todo que lhe prende e lhe abraça muito mais que o ar. Nela fujo e reafirmo minha condição solitária. De homem que nasce só. E sempre anda sozinho. Esperando a morte que lhe carrega sempre desacompanhado.

ÁGUA É VIDA!!!