No mar... entre... mais perto do céu...

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BH, Minas Gerais, Brazil
A ‘‘butterfly moon’’, os dois tchicos que um dia eu conheci e que mesmo sem nenhuma palavra trocada mudaram minha vida, sabendo que provavelmente não voltarei a vê-los. O céu aberto, as ‘‘asas fauves e blesseds e os sonhos inefáveis’’. A música, a arte, o tesão, a esperança e tudo aquilo do qual não abro mão. Pessoas são passageiras, momentos são passageiros; sua memória não. Então talvez eu também seja um poço de lembranças, momentos, sonhos, vontades e filosofias.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Memórias de um banco:



Me pergunto sobre a razão do tempo. Das folhas que caem e dos meus olhos que um dia admiraram-nas ou pisaram sobre elas. Memórias que não se apagam mas que deixam de arder em meio uma invisível tempestade em que o tempo bóia. Defrontei-me com o banco em que se esteve toda uma forma de mundo, um momento de vida, sonhos e alguém a desejar. E agora sei que lá o banco permanecerá para que eu me assente eternamente. Na roda do tempo lá estive diversas vezes com os sentidos e os pensamentos mais variados. Lá também por vezes me deitei só. Desejei ser um grão de areia. Indistinguível, imperceptível. Apenas um ruído de horas, para que ninguém desconfiasse. Desforme, descontinua, desiludida e mal acabada. Hoje a tarde me perguntei porque o banco continuava ali estático; as folhas ainda nasciam e caiam da mesma árvore enquanto eu, não as via não as pisava, e nem estava mais ali. A fotografia ficou incompleta. Afinal, um banco que guardava tantas memórias minhas. Tanta tristeza e tanta esperança depositadas no lugar ao lado do que me assentava, sempre vazio. Bom ou ruim, era o meu passado voltando aos meus olhos através da fotografia. A lembrança das emoções que me perturbavam me atiçando a novamente sentar naquele banco. Chorar, escrever e procurar algum orelhão próximo para dar o telefonema. Quando a ansiedade andava de mãos dadas com a esperança. Me assaltou o equilíbrio por momentos o saudosismo de um ciclo seguro, que em sua dor não se partia. Olhei novamente aquele quadro. Refleti sobre as paredes invisíveis que me trancafiavam por trás daquela tela. Eram as paredes que me tiravam o ar sem que eu as enxergasse. E agora as vejo delimitando tão bem um todo que era eterno, porque era estático. Porque era seguro não me remover. As coisas continuariam sempre ali indiferentes, e eu do modo como quisesse. Eu era vitima da cegueira amedrontada que criei para proteger minhas ilusões. Mas senti que mesmo me assentando ali naquele momento, a fotografia continuaria vazia. A fotografia continuaria vítima do passado. O banco? Era vítima de permanecer. As folhas continuariam eternamente em sua natureza de figurar, vítimas de sentimentos que as entregassem. Porque o que compunha a fotografia não era o banco, nem as folhas e muito menos eu. Era a vítima de minhas pretensões. Era a espera angustiada com um lugar sempre vazio ao lado.

(Raquel Mello).

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Amoras e amores:


Um dia me veio um vendedor de amoras bater em minha porta. Amoras em pleno verão. Já não era mais primavera; já não era mais tempo de amoras. Mas o recebi, comi as amoras e me lambuzei. Na mesma noite me bateu a porta um devaneio que pela primeira vez ousou me questionar sobre o amor. Com tanta firmeza eu diria que já havia amado uma vez, apesar das inúmeras paixões. Por uma vez tive a sorte de conhecer o amor. Em pleno inverno. Época boa para se aquecer os pés e o sentimento. No dia seguinte não bateram a porta. Pelas janelas invadiu a incerteza sobre o que era o amor. Pelas mesmas me veio a falta das amoras em minha mesa. Verão não é tempo de amoras. Inverno talvez o tempo mais cômodo ao amor. Carambolas no outono, morangos no inverno, cerejas na primavera, ameixas no verão. Amoras também na primavera. Já não esperava mais por elas. Junto com as flores deixei para trás também seu gosto, junto ao tempo. Então me perguntei por que elas vinham me atormentar atrasadas na nova estação. Por que ao invés de amoras aquele vendedor não me ofereceu abacaxis? ameixas, mangas, jacas ou goiabas? Quando as batidas na porta seriam já esperadas. Quando o encontro seria premeditado e caminharia seguindo as estações. Por que amoras atrasadas ao passado, adiantadas ao futuro, sem encontrar-se presente? Me sugestionando a enxergar sempre flores enfeitando as ruas e o céu coberto de estrelas, guardando sonhos. Me fazendo desejar aquecer os pés me banhando de suor alheio enquanto é verão. Enquanto o calor é torturante. O inesperado é apaixonante, é especial. Carrega sonhos acordados. Para alguns terror. Mas para mim é encanto. Desde então dei a questionar o amor. Dei a esperar flores no outono e semanas escaldantes no inverno. Dei a perceber que é mais saboroso quando não se aguarda, não se previne. Quando a vontade é maior que o dever do tempo. Quando se lambuza mesmo com o perigo de manchar a estrada porque ainda não é estação para a sua passagem. Quando tentando tapear a natureza se quer cultivar amoras durante o ano todo. Quando o risco incumbido na incerteza do inesperado apaixonante, se faz também amável.

Raquel Mello.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

''Fiz de quatro paredes em meu corpo uma muralha transparente e fui ao longe..''

Que a insensatez não seja em vão
Que o seu retorno seja alegria certeira de se aventurar
Que a vida te mostre o caminho através do devaneio
Que ínfima sejam as fronteiras da ausência do peso, a leveza
Que você sorria ao acordar
Que o céu esteja sempre aberto em seus olhos, que eles brilhem
Que o sono realmente reconstitua e renove os pedaços
Que suas lágrimas sejam usadas para regar as flores dos jardins de sua alma
Que consiga amar o nada para conseguir alcançar o tudo
Que sua vida não caiba resumos
Que as coisas nunca estejam terminadas
Que você não perca sua essência e cegue o essencial
Que não detenha o poder de suas asas
Que você não passe a vida a procurar, despercebendo o encontrar
Que seus pés não se prendam a sapatos, nem estradas
Que você os permita flutuar como uma mente que vive em sonhos...

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Incha dia:.

Eu vi a infância adentro rosto de meu avô. Todos os sonhos e planos de um futuro expostos sob a face presente. As expectativas deitadas sob a cama. Os pés agitados a descansar. Na ânsia de crescer, pela luz tardia que invadia o quarto, a correria pela vida por debaixo das cobertas quentes, serenas.
A repousar.
Um bebê, uma flor frágil. Eu vi seus pés inchados. Aquela cama, eu vi um berço. Uma criança que ainda não aprendeu a andar. Uma infância que precisa de um futuro que sai pelas janelas para voar.

(Apesar de achar que ainda não está terminada, resolvi postar.. afinal.. as coisas nunca estão terminadas.)

(Raquel Mello)

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Ela me retorna a minha origem. Ela retoma a possibilidade da vida, a mesma que só existe devido a morte. Na impossibilidade de abrir vôo, flutuo sobre sua imensidão. Não conseguindo apalpar mundos que passam pela minha cabeça ela oferece outra dimensão, outra densidade, a sensação de si num outro todo. Num outro todo que lhe prende e lhe abraça muito mais que o ar. Nela fujo e reafirmo minha condição solitária. De homem que nasce só. E sempre anda sozinho. Esperando a morte que lhe carrega sempre desacompanhado.

ÁGUA É VIDA!!!

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Por ai, borboleta:

A vida se mostra ínfima em suas fronteiras. Ela já tinha conhecimento de que só poderia oferecer a real felicidade a alguém a partir do momento em que a lhe continha em mesmo peso. E que a comunhão não fizesse a ela faltar. E que para entrelaçar duas mãos era preciso que cada uma existisse e para que desse frutos era preciso que cada uma de si compartilha-se, e que para torná-las uma só bastava apenas que se compreendessem.
Mas ela gostava de se entregar ao desatino. Entregava sua vida.
Se permitia cansar das alturas para poder devanear pela vertigem. Sonhava em cair e ser repousada sobre braços pomposos que lhe acolhessem a queda. Mas quem a permitisse cair na tentação, com uma incrível sofreguidão, deteria o poder de suas asas. Sabia que o amor só florescia fora de panelas e que do fervor bastava-se o ar quente das pernas. Que o infinito interno devia se igualar ao céu que lhe abriam as janelas. Sabia que a felicidade era a prole da explosão de belezas. E que a sua beleza estava justamente no colorido do bater de suas asas a voar.