O silencio é extremamente sugestivo. Assim como a escuridão que silencia a visão. Na falta dos sentidos toda criatividade floresce. Passamos a vida inteira explorando e desgastando os caminhos que a claridade sensorial nos oferece. Passamos pela vida, pausando apenas para questionar a razão. A razão do verde, a razão da gravidade, a razão da maça e razão de sua criada citação. Quantas portas se abrem nessa vida? Se abrem e se fecham na saída. Não tenho conhecimento de nenhuma porta que nunca se fechou. E dentro do espaço que elas asseguram há tempo. Muito tempo. Talvez tempo vazio, mas sempre tempo perdido. Ou será que na falta da presença de vida o tempo é estático pelos quartos, salas, banheiros, escritórios, lojas, museus? Todo aquele ar contido desperdiçado... o tempo não passa por ambientes fechados? A porta do caixão se fecha. Nostalgia é luxo. Quando abrimos a mente à ela perdemos sempre o novo tempo. Imagino que a morte deve ser assim. Deve ser o único momento em que a nostalgia deixa de ser luxo e existe em condição orgânica. E não dói. Todo aquele tempo vazio de compartimentos por vezes inabitados lhes surge e todas as lembranças que se pode cabem. Cabem porque suas portas estão se fechando. O rastro de vida esta se esvaindo, a porta vital se fechando e o tempo se tornando estático. E a percepção da passagem do tempo é a prova sensorial de que estamos vivos. Então enquanto seus olhos, portões milagrosos aos poucos vão se fechando, seu coração e órgãos silenciando seu mecanismo, seus sentidos emudecendo as reações, há tempo de sobra. Talvez a morte seja simplesmente necessária para o florescimento da criatividade ou à abertura a outra realidade através do silêncio dos sentidos. Dinâmica ou não. No compartimento intímo inativo, estático tempo talvez a morte seja realmente a porta para a eternidade.
Raquel Mello.
No mar... entre... mais perto do céu...
- Raquel Mello
- BH, Minas Gerais, Brazil
- A ‘‘butterfly moon’’, os dois tchicos que um dia eu conheci e que mesmo sem nenhuma palavra trocada mudaram minha vida, sabendo que provavelmente não voltarei a vê-los. O céu aberto, as ‘‘asas fauves e blesseds e os sonhos inefáveis’’. A música, a arte, o tesão, a esperança e tudo aquilo do qual não abro mão. Pessoas são passageiras, momentos são passageiros; sua memória não. Então talvez eu também seja um poço de lembranças, momentos, sonhos, vontades e filosofias.
sábado, 11 de outubro de 2008
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Um comentário:
Seu silêncio vibra bem perto do meu, do uno, do todo. Um espanto a estática constatação que reproduz essa poética. Morrer é mesmo necessário. Talvez só o olho de uma borbolta traria luz novamente pra renascer. E aí tudo seria o mundo, que sem despertar corre novamente para o silêncio.
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