Esta tarde ouvi aquela melodia. Assentada sozinha fechei os olhos e a quis para minha eternidade. A melodia que me tocou mas que nunca haveria de apalpar. Levaria a aos meus mais tenros desejos. Ao poço formado por todas as lagrimas que regaram dias tristes. Ao vento que refresca aos jardins floridos da alegria. A queria para sempre de mãos dadas como aqueles raros momentos de plenitude. Mas também sobre o instante em que despercebida encontrei o motivo de exagerada entrega. Sobre a madrugada em que nos aventuramos para do mundo zombar, gozar acusando o inevitável. A queria naquela noite estrelada enquanto conversávamos sobre a grama, confessando nossas fraquezas. Sobre uma tal cama em que unimos nossos corpos e nos entendemos em risadas. Sobre o clarão e o infindo dos céus em que nos prometemos sem temor. Sobre toda água e sabão que já secou ou ainda lavará. Sobre o sol, a terra e o ar que se respira. Sobre a toalha que ainda hei de molhar, o talher que haverei de sujar; o copo que haverei de esgotar e o pires de doce que ainda irei lamber. Sobre as vestes, a sola, os pêlos, a pele. Sobre o frio da barriga ao subir a arvore, ao telhado ou ao elevador. Sobre a tola certeza de um dia acreditar ter encontrado. E também naquela tarde sob o samba, amigos e cerveja. Sobre a tradicional cerimonia familiar de natal. Sobre a nostalgia que sinto ao ter conhecimento de tudo o que não vivi lendo alguma prosa. Sobre a hora de dormir. Sobre as portas e o conteúdo nunca acordado dos mistérios que sonho. Junto ao pão de cada dia. Sobre minhas manhas esboçadas, minhas tardes de nada. Sobre cada passo que me leva a madrugada. Sobre a vontade de alcançar o tempo e saborear todo o mundo. Estaria sobre as minhas brigas, desolação, em acelerada partida. Na minha solidão em reflexão. Nos momentos de alegria como dança. No amor como natural encantada sensação. Nas surpresas emoção. Aquela melodia poderia trilhar minha vida. Inexplicável; se pudesse a sentir de olhos abertos sempre me vendo por dentro como esta tarde a ouvi.
(Raquel Mello).
No mar... entre... mais perto do céu...
- Raquel Mello
- BH, Minas Gerais, Brazil
- A ‘‘butterfly moon’’, os dois tchicos que um dia eu conheci e que mesmo sem nenhuma palavra trocada mudaram minha vida, sabendo que provavelmente não voltarei a vê-los. O céu aberto, as ‘‘asas fauves e blesseds e os sonhos inefáveis’’. A música, a arte, o tesão, a esperança e tudo aquilo do qual não abro mão. Pessoas são passageiras, momentos são passageiros; sua memória não. Então talvez eu também seja um poço de lembranças, momentos, sonhos, vontades e filosofias.
quarta-feira, 13 de agosto de 2008
Assinar:
Postar comentários (Atom)
2 comentários:
sublime o acima tocado por essa sua harmonia poética ascendente. Frases que dilatam o âmago! Mto Bom,.
Kekel!
Te linkei lá no meu blog novo (http://hifiquasar.blogspot.com/).
Me linka aqui tb!
Bjos, Aninha
Postar um comentário