Nada entendia aquela menina ao ver os rostos, tão tristes a beira de um caixão.Sua mãe veio docemente lhe dizer que sua avó havia partido.Ela já estava sentindo algo estranho, conseguia ver a sua avó, mas não sentia mais a emoção, o calor.Perguntou a sua mãe, queria saber a direção.Pensava em lhe enviar cartas para matar um pouco a saudade.Mas sua mãe lhe disse que sua avó havia ido para o céu, ajudar Deus.Bela sabia que lá era lonjão, e mesmo se usasse todas as suas forças, até mesmo se subisse em uma escada e arremessasse, a carta não chegaria.
Ela chorou.Ainda a pouco desconhecia a saudade pelo eterno.Sabia que sua avó tinha se mudado para o céu e toda vez que para ele ela olhasse, sua avó a estaria vendo.Cresceu e aprendeu a conhecer a morte.Não gostava dessa palavra que lhe trazia lembranças de ver tantas faces vivas mortas.Era a partida, o velório, o enterro, a última, finalizada despedida. Mas Bela já era grande, e já havia ouvido uma frase que muito a consolava.´´Nada se cria, nada se perde, tudo se transforma``. E tinha muita certeza que cada vez que se deparasse com o Adeus, na realidade era um até daqui a pouco.Sabia que não poderia mais tocar as mãos quentes, acolhedoras; e que nunca mais haveria de ver aquele sorriso compondo o corpo, nem os olhos que se encaixavam perfeitamente em cima daquele nariz imperfeito de sua avó.Mas várias situações a faziam sentir-se assustadoramente sob a presença dela. ´´Cheiro de vó``, era o aroma de azaléias que a faziam devaneiar e sentir-se em uma tarde passada.Lábios desconhecidos que sultilmente sorriam à tentar consolá-la quando estava triste. Olhares sob nariz de todas as dimensões, mas que transmitiam palavras de sabedoria mudas, que a faziam sentir que tudo passa, que ela ainda havia muito a crescer. Nunca se conformou com a tristeza da partida.Ela sempre soube que não teria mais ao seu ver aquele corpo completo.Mas também que sua avó nunca partiu, nunca iria partir.De sua presença ela se repartiu, mas estaria sempre dentro dela, e dela nunca haveria de ir.
(Raquel Mello)
No mar... entre... mais perto do céu...
- Raquel Mello
- BH, Minas Gerais, Brazil
- A ‘‘butterfly moon’’, os dois tchicos que um dia eu conheci e que mesmo sem nenhuma palavra trocada mudaram minha vida, sabendo que provavelmente não voltarei a vê-los. O céu aberto, as ‘‘asas fauves e blesseds e os sonhos inefáveis’’. A música, a arte, o tesão, a esperança e tudo aquilo do qual não abro mão. Pessoas são passageiras, momentos são passageiros; sua memória não. Então talvez eu também seja um poço de lembranças, momentos, sonhos, vontades e filosofias.
segunda-feira, 10 de dezembro de 2007
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