Às seis da tarde nada se espera além do escurecer, mas naquela tarde algo fora do normal passou pelos meus olhos, meu coração.A admiração me fez rir, sorrir e abrir as asas. Um homem que pelo parque corria atrás de pombos. Corria desordenadamente tentando os agarrar. Com a persistência de um leão atrás de sua caça quando os alcançava apalpava, enchia de amor, carinho; mas se contentava com a curta duração da graça e com a emoção apaziguada, libertava. Sabia que se prolongasse a pureza se perderia. Do sentimento já dispersado, o belo se prolongaria em desencanto.
Ele tocava e sorria. Sorria com aquele sorriso prazero de quem como por um segundo alcança a plenitude. E de fato sua sensação era essa. Sem passado ou futuro, esquecia do ao redor e sentia quase que cegamente aquele momento furtivo, mas a intensidade com que o vivia lhe bastava. Se conformava em fazer de sua vida emoções picadas e desentendido, em seu mundo tudo se ligava. Na verdade essa era a razão de sua vida. Fazia isso com sonhos, trabalhos e mulheres.
Ali sentado no bar com seu café posto no balcão, de frente para a parede sua paisagem aberta era o sol matutino, a rua e o viaduto, porém seus devaneios lhe deslocavam para tão longe que nem sua própria presença ele percebia. O vapor do café lhe trazia memórias boas, melancólicas. Mas não se punha a pensar, deixava a sensação vir e passar no tempo que lhe era natural. E todos os seus dias corriam assim. As vezes intocado, as vezes surpreendido por alegrias instantâneas que de onde viam desconhecia, mas que preenchiam um espaço de satisfação fácil.
Naquele dia estranhamente as lembranças lhe invadiram em suas situações mais cotidianas.O café, que lhe carregou a outro mundo.E partindo para seus compromissos, papéis entregues, suas expectativas estavam além das horas, dos acontecimentos e respostas. De fato que o almoço ele engoliu. Do gosto, certo de que nada sentiu. E andou agitado até ás quatro. Sentou, abriu seu livro e cumpriu a rotina de que lhe agradava, lhe personificava. Às cinco sorriu. Adorava como as crianças brincavam em volta das árvores, e com o livro entreaberto aquelas linhas não mais tinham valor, se fez viajar. Mas aquela cena que lhe despertava esperanças, lhe fez relembrar as expectativas da infância. Seus amigos que sonhavam, projetavam-se espiões, bombeiros, que o gozavam e de nada entendiam quando dizia: o que quero ser quando crescer? Ah, eu quero ser caçador de pombos.
No mar... entre... mais perto do céu...
- Raquel Mello
- BH, Minas Gerais, Brazil
- A ‘‘butterfly moon’’, os dois tchicos que um dia eu conheci e que mesmo sem nenhuma palavra trocada mudaram minha vida, sabendo que provavelmente não voltarei a vê-los. O céu aberto, as ‘‘asas fauves e blesseds e os sonhos inefáveis’’. A música, a arte, o tesão, a esperança e tudo aquilo do qual não abro mão. Pessoas são passageiras, momentos são passageiros; sua memória não. Então talvez eu também seja um poço de lembranças, momentos, sonhos, vontades e filosofias.
quarta-feira, 14 de novembro de 2007
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Um comentário:
Quem sou eu para julgar se esse texto ficou bom ou ruim. Mas me arrepiei só de imaginar um homem que não pensa no futuro, que não faz planos para a mediocridade da vida perfeita. Queria eu ter a coragem de ser um caçador de pombos.
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